
Emmanuelle
Garrido Alkmin é advogada formada pela PUC e secretária de Direito das
Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida em Campinas
Aos seis meses de vida, Emmanuelle Garrido Alkmin foi diagnosticada com
Retinoblastoma Bilateral, um tipo raro de câncer que se manifesta na
primeira infância. Ela perdeu a visão e teve de, ao longo dos seus 33
anos, superar um desafio atrás do outro: “Escolhi viver com e apesar da
deficiência”, conta.
Esta decisão conduziu Emmanuelle a uma bem-sucedida carreira no Direito,
ela é advogada formada pela PUC, e também na vida pública. Hoje ela é
secretária de Direito das Pessoas com Deficiência e Mobilidade Reduzida
em Campinas, e em outras experiências no poder público exerceu o cargo
de Assessora da Secretaria de Assuntos Jurídicos e Cidadania de
Campinas, e Chefe de Gabinete.
Esta história de superação foi destaque na 31ª edição da revista Exibir
Gospel. Em quatro páginas, ela conta o drama de sua mãe em
educar uma menina cega, e a importância da fé nos momentos mais difíceis.
Segue abaixo a entrevista, liberada para reprodução.
Emmanuelle Alkmin: “Escolhi viver com e apesar da deficiência”
ENTREVISTA NA ÍNTEGRA:
Uma mulher de visão
A Secretária de Deficiência e Mobilidade Reduzida em Campinas, a
deficiente visual Emmanuelle Alkmin enfrentou inúmeros desafios ao longo
de sua trajetória, que ela construiu baseando-se na fé e na
família
Emmanuelle Garrido Alkmin, Secretária de Direito das Pessoas com
Deficiência e Mobilidade Reduzida em Campinas, tem uma história de vida
marcada pela superação de desafios. Deficiente visual, ela sempre contou
com dois importantes elementos para vencer todos os obstáculos: a fé em
Deus e o apoio inestimável da família.
Aos seis meses de idade, Emmanuelle foi diagnosticada com Retinoblastoma
Bilateral, um tipo raro de câncer que se manifesta na primeira
infância. Para sua mãe, a enfermeira Carmen Lúcia, o diagnóstico — que
ela sabia implicar em deficiência visual — caiu como uma bomba. Carmen
sabia das complicações que enfrentaria para cuidar de um filho em tais
condições.
Porém, após o choque inicial, a enfermeira trocou o medo pela esperança e
aceitou o desafio de lutar não apenas pelo bem-estar físico de sua
filha, mas, principalmente, por sua independência. Essa decisão fez toda
a diferença.
Emmanuelle
cresceu
sob a inspiração desafiadora de dona Carmen, que procurou lhe mostrar
todas as possibilidades que ela poderia aproveitar se sua capacidade,
determinação e força de vontade fossem maior do que a maioria.
O impulso materno foi fundamental para que a secretária conquistasse sua
autonomia, fazendo uso da sua inteligência e empenho para galgar os
patamares mais elevados da profissão.
Das dificuldades que quase a impediram de se graduar em Direito aos
desafios de sua carreira na gestão pública, Emanuelle enfrentou tudo com
fé e otimismo.
A secretária trabalhou na Prefeitura de Campinas de 2002 a 2005,
ocupando o cargo de Secretária de Assuntos Jurídicos e Cidadania.
Deficiente visual, de 2007 a 2008, assumiu a presidência da Pró-Visão,
entidade para
educação de crianças com este tipo de deficiência.
Emmanuelle é membro da Igreja Batista do Cambuí, em Campinas, e sempre
destaca a importância da fé em sua vida durante as palestras e cursos
que oferece para públicos de diferentes perfis e faixas etárias. Aliás, é
uma das principais formas que ela encontrou de compartilhar com as
pessoas as lições de entusiasmo e de perseverança.
O próximo desafio de Emmanuelle é a publicação de um livro que contará
os episódios marcantes da sua vida e responderá a questões que muita
gente faz ao testemunhar sutilezas da sua autonomia como, por exemplo, o
fato de que ela se veste muito bem — e sozinha.
Como foi que sua família descobriu que você perderia a visão?
Aos seis meses de idade, minha mãe estava me dando a papinha do jantar e
viu um brilho estranho em meus olhos, parecido com um “olho de gato”.
No dia seguinte, fomos a um oftalmologista o qual nos enviou a Curitiba
onde estava ocorrendo um congresso de medicina internacional. Ali, a
junta médica constatou o câncer tipo Retinoblastoma Bilateral.
Qual foi o primeiro passo tomado diante da descoberta do câncer?
Quando tinha 6 meses e 20 dias de nascida passei por uma cirurgia em
Curitiba, no Hospital de Olhos, um procedimento de alta complexidade e
que durou cerca de seis horas. Minha mãe, Carmen Lúcia, por ser
enfermeira, sabia que seria algo muito complicado e orou a Deus pedindo
Sua intervenção.
Como você e sua família lidaram com o desafio?
Eu me lembro que, após os 3 anos de idade, passei por rotineiros exames
de sangue e radiografias de pulmão. No início foi muito difícil para
minha mãe, porque uma semana antes do diagnóstico ela havia dito que não
teria forças para ter um filho cego. Isso é compreensível porque as
expectativas para uma criança cega há 33 anos eram muito pequenas.
Quando, no entanto, ela se deparou com a situação, buscou enfrentá-la,
adquirindo conhecimento e formas de trabalhar comigo, de apresentar o
mundo visível. Minha mãe deixou de ser uma enfermeira para cuidar
apenas de mim.
Como foi sua infância?
Minha infância foi muito gostosa. Sempre tive muitos amigos com e sem
deficiência. Brinquei bastante de esconde-esconde, e cabra-cega, a
brincadeira que eu sempre começava! E também andei de bicicleta, nadei,
joguei “Banco Imobiliário”, sempre convivendo muito naturalmente com
outras crianças, que, não se importavam em me fazer de “café com leite”
em brincadeiras nas quais não dava pra participar, como a queimada
(risos).
Você estudou em escolas especiais?
Eu comecei a estudar na escola regular, aos 2 anos e 8 meses.
Paralelamente, fazia o acompanhamento na “escola especial/sala de
recurso/estimulação precoce”, para aprender a desenvolver o tato,
coordenação motora especial para leitura e a leitura pelo método
Braille. Aos 6 anos já estava alfabetizada em Braille e continuava no
ensino regular.
Como foi atravessar a adolescência na condição de deficiente visual?
Na infância é muito tranquilo. As crianças são naturais. Na
adolescência, as diferenças já começaram a pesar. Meninos não queriam
nada comigo porque eu era cega. Essa foi minha primeira crise com a
deficiência e a superei com o apoio da família, com a fé e leitura da
Bíblia que me mostrou que Deus me conhecia quando eu ainda era uma
célula na barriga da minha mãe. Ali, vi que Deus tinha um plano para
minha vida, mesmo sendo cega e consegui forças para continuar. Foi um
baque, mas percebi que a deficiência continuaria ali, nada tinha para
fazer em relação a isso, então, escolhi viver com e apesar da
deficiência.
Quais foram os principais desafios que você enfrentou na juventude?
Eu creio que tenha sido de aceitação própria. Foi na juventude que tive
as maiores crises comigo e, mesmo com Deus pelo fato de ter ficado cega.
Eu, assim como todos os jovens, precisava encontrar meu lugar no mundo e
aí precisei, de verdade, enfrentar a questão do quanto a limitação
visual determinaria quem eu viria a ser. Então, às vezes tinha vergonha
da bengala que tinha que usar para me locomover, às vezes achava que
ninguém iria gostar de mim, que não namoraria nunca. Ás vezes achava que
não teria uma profissão.
Você se recorda de alguma situação marcante?
Um desafio interessante foi quando, apesar de ter sido chamada para uma
peça no colégio, acabei sendo substituída por outra garota. Isso me
levou a pensar que “se enxergasse estaria na peça”. Jamais soube o
porquê saí, é claro que poderia ser porque não era uma boa atriz
(risos), mas naquele momento fiquei muito mal por ter a certeza — por
mim fabricada — de que havia sido substituída por ser diferente.
Resumindo, creio que meu maior desafio na juventude tenha sido minha
formação de identidade e saber separar as limitações da ausência de
visão daquelas inerentes a todos nós, simples seres humanos.
Como encarou o desafio de cursar uma faculdade?
Naquela época acreditei que não teria sucesso profissional, porque não
tinha acesso aos mesmos materiais que meus colegas e veio uma imensa
vontade de desistir, já que estava num curso que exigia principalmente
leitura e, para mim, portanto, faltavam livros acessíveis — em Braille
ou digitais. Nas duas fases, a confiança da minha família de que seria
possível, de que eu seria alguém, de que a deficiência não determinaria o
meu futuro, foi essencial para que eu pudesse superá-las. A família
realmente precisa acreditar que o deficiente pode ultrapassar os
limites, caso contrário, ele sucumbirá aos nãos do mundo. Minha família
me ensinou, com atos e palavras, “A arte de sorrir, cada vez que o mundo
diz não”. (Brincar de viver — Maria Betânia)
Por que você escolheu cursar Direito?
Queria ser juíza para modificar o mundo ao meu redor! Já na época sabia
que não poderia “mudar o mundo”, mas acreditava que poderia mudar
algumas pequenas coisas ao meu redor. Após concluir a graduação em
Direito, resolvi me aperfeiçoar. Hoje estou concluindo duas ao mesmo
tempo — MBA em Comunicação e Responsabilidade Social e MBA em
Desenvolvimento Humano de Gestores na FGV.
Como foi sua rotina na faculdade?
Foi muito parecida com a de meus colegas. Primeiro a sensação absoluta
de estarmos perdidos e não conseguirmos dar conta de nada — agora estou
me lembrando de um dia em que estávamos numa mesa enorme de estudos e a
sensação geral era de que não mais sabíamos ler português (risos). O
mais complexo foi a falta de material. Não existiam livros jurídicos em
Braille e os recursos de informática para deficiente visual estavam em
desenvolvimento. Então era muito difícil obter material para estudo.
Como foi seu ingresso no mercado de trabalho?
Entrei na faculdade de Direito para ser juíza, mas como a vida real
sempre nos surpreende, acabei ingressando no mercado de trabalho, por um
revés financeiro, como Assessora da Secretaria de Assuntos Jurídicos e
Cidadania de Campinas. Após três meses, comecei a exercer funções de
Chefe de Gabinete.
Você sofreu preconceitos?
Sim. Falando francamente, eu vim conhecer o que era preconceito real
somente no mercado de trabalho. Antes não tinha experimentado o
preconceito, aquele que por vezes imobiliza e exige de você uma força
sobre-humana para prosseguir.
O que é mais embaraçoso ou irritante para um deficiente visual?
Vou falar por mim, ok? Sinto muita falta de trocar olhares porque esses
eliminam barreiras de relacionamentos; não gosto desse culto à imagem —
tudo hoje tem um vídeo com um monte de imagens e sem nenhuma fala! Isso é
horrível! Eu fico lá sentadinha e as pessoas rindo, gritando e eu só
fico “ouvindo” música! (risos). E o pior de tudo é que uso essas
técnicas em minhas palestras também! (risos).
Qual é a natureza do cargo para o qual você foi nomeada em Campinas?
Essa nomeação ocorreu em virtude de meu histórico profissional anterior e
de vivências que acumulei até aqui. A nossa missão é a de promover
melhorias das condições de vida de pessoas com deficiência que possuam
mobilidade reduzida fazendo com que os direitos já garantidos sejam
colocados em prática. É um momento especial porque poderei juntar minha
vivência profissional com a vivência pessoal.
Você manifestou interesse em escrever um livro. Do que ele se trata?
Ah, é verdade! Eu gostaria de escrever um livro contando algumas de
minhas histórias, mas com humor, para mostrar que sempre é possível ter
um novo olhar sobre as nossas circunstâncias. Esse livro é destinado a
todas as pessoas que querem rir um pouco e ver que a vida pode ser
melhor, plena, abundante, mesmo quando as circunstâncias dizem “não”. O
livro falará sobre como Deus faz o impossível quando decidimos fazer o
que nos é possível.
Como é sua rotina como palestrante e para quais públicos você fala?
As palestras são destinadas ao público cristão em geral e ao corporativo
e educacional. Posso dizer pelos depoimentos no final das palestras,
que as pessoas saem efetivamente impactadas, melhorando o clima
organizacional e facilitando a tomada de decisões.
O que você teria a dizer a outros deficientes visuais que também buscam seu espaço na sociedade?
Não desista! Lute! Qualifique-se! Acredite em você! Transforme os nãos
em degraus de uma escada que te leve a conseguir um emprego e, acima de
tudo, lembre-se que obstáculos são feitos para serem contornados e não
para serem retirados do seu caminho, porque vencendo-os você será uma
pessoa extremamente feliz! Creia que Cristo conhece suas limitações,
porque Ele mesmo se limitou por amor a você e, com essa certeza,
continue!